Kamikakushi

Kamikakushi: raptos, contatos e a interação com o sagrado e o sobrenatural

Para comparar o incomparável é necessário selecionar categorias que provoquem a reflexão para além de um inventário de semelhanças ou diferenças. Assim, escolhemos o tema kamikakushi, trazendo para o debate as categorias de comparáveis: rapto, contato e interação com o sagrado e o sobrenatural.

Kamikakushi 神隠し, na língua japonesa, refere-se ao desaparecimento repentino e misterioso, principalmente de crianças, perpretado por entidades divinas ou youkai. Diante de um desaparecimento, os moradores do vilarejo tocavam o sino, entoando “kaese, modose” (mande de volta para casa, devolva). Por vezes, a criança ou pessoa era encontrada em estado alterado, estupefata, e diziam que tinha sido escondida por um tengu (tipo de criatura lendária entendida em determinadas épocas, principalmente nos períodos Nara e Heian, como inimigo do Budismo), mayowashigami ou kakushigami (seres sobrenaturais que atacavam os incautos).

Todavia, a própria possibilidade de algum contato ou interação com o sagrado ou o sobrenatural se encontra interditada em outras culturas. Assim, cabe questionar em que medida essa interação é compreendida, quais atores podem ter a iniciativa e em que medida há uma resposta, nos casos em que os deuses ou entidades não tem a iniciativa.

Na Grécia Antiga, por exemplo, não só existem inúmeras estórias relacionadas a raptos de mortais por deuses, como inúmeras outras em que os magoi se comunicavam com os mortos e com os deuses. Esses contatos eram feitos somente por pessoas iniciadas nos conhecimentos da magia, que eram consideradas especiais e portadoras de poderes inacessíveis aos demais mortais.

Convidamos a todos para conversarmos e debatermos sobre essas relações e interações nas mais diversas culturas, no tempo e no espaço. Contamos com a sua presença e contribuição!